FEIRA: Conheça a jovem de 27 anos que transformou um sonho improvável em profissão: “A mecânica foi o que eu escolhi”

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Durante muito tempo, Cíntia Queiroz acreditou que sua paixão por carros jamais poderia se transformar em profissão. Natural de Itapiramutá, ela cresceu ouvindo falar de motores, colecionando histórias sobre carros antigos ao lado de um amigo de infância e alimentando um sonho que parecia distante por um único motivo: ser mulher. Hoje, aos 27 anos, ela desafia estereótipos todos os dias ao atuar como mecânica em uma concessionária de Feira de Santana, onde desmonta motores, faz diagnósticos, trabalha com suspensão e conquista, pouco a pouco, a confiança dos clientes.

Cíntia Queiroz | Foto: Arquivo Pessoal

Uma paixão que nasceu antes da profissão

Antes mesmo de imaginar que existia um curso técnico ou uma oficina onde pudesse trabalhar, Cíntia já sabia que os carros ocupavam um lugar especial na sua vida. A paixão surgiu ainda na adolescência, influenciada por um amigo de infância, Jhonatas, que respirava carros antigos.

“Ele sempre foi apaixonado por carro antigo. E como a gente convivia muito, foi transferindo essa paixão e eu me apaixonei por aqueles carros antigos que o povo chama carro velho. A nossa vida, era isso. Era falar sobre carro, era colecionar carro, era só isso.” O sonho, porém, parecia impossível. “Na minha mente não existia a possibilidade de existir essa profissão que eu pudesse entrar, sendo mulher.”

Quando terminou o ensino médio, decidiu deixar Itapiramutá e tentar a sorte em Feira de Santana. Ingressou no curso técnico do Centro Estadual de Educação Profissional (Ceep), voltado para a área industrial, mas logo os professores perceberam que sua vocação era outra.

“Quando entenderam que a minha aptidão era a mecânica automotiva e que eu não ia desistir disso, eles incluíam a mecânica automotiva num curso também.” O desempenho chamou atenção e ela desenvolveu, como Trabalho de Conclusão de Curso, uma bancada de alinhamento ao lado de um professor, experiência que abriu as portas para o primeiro estágio em uma concessionária da cidade.

Foi ali que conheceu um mecânico chamado Luiz, que acabaria se tornando uma das pessoas mais importantes da sua trajetória. Embora tenha estranhado, no início, ver uma jovem insistindo em uma profissão dominada por homens, foi ele quem ajudou Cíntia a acreditar que estava no caminho certo. Ela lembra da resposta que dava sempre que era questionada: “Luiz, eu acho que não fui eu que escolhi a mecânica, eu acho que foi a mecânica que me escolheu desde muito nova.” O incentivo fez diferença. “Ele me apoiou muito, me ensinou muito e me fez perder aquele medo que eu tinha de encarar as pessoas.”

Conheça a jovem de 27 anos que transformou um sonho improvável em profissão: "A mecânica foi o que eu escolhi"
Foto: Ed Santos/Acorda Cidade

Ao fim do estágio, Cíntia voltou para Itapiramutá imaginando que encontraria espaço para exercer a profissão. A realidade, no entanto, foi bem diferente.

“Cheguei lá, o choque de realidade de que as pessoas não conheciam o que era uma mulher nessa área.” Sem conseguir uma oportunidade, precisou trabalhar em outras atividades, mas nunca deixou de imaginar como seria viver da mecânica. “Muitas vezes eu também me questionava. Será que é realmente isso que eu quero? Por que é tão difícil? Se fosse pra ser, não seria mais fácil?”

A resposta veio alguns anos depois, por meio de um telefonema de Daniel, um colega que havia estudado com ela e já trabalhava em uma concessionária de Feira. Surgiu uma vaga de auxiliar de mecânica. Ela não pensou duas vezes. “‘Ele falou, surgiu uma oportunidade aqui, mas é de auxiliar, não é mecânico ainda. Tu quer?’ Eu falei, nem me fale duas vezes, só me diga o dia que é para ir que eu vou.”

Nesses momentos decisivos, a família foi fundamental para enfrentar os começos e recomeços.

Conquistando espaço e abrindo caminho para outras mulheres

Há quatro anos na empresa, Cíntia passou dois anos como auxiliar até conquistar a promoção para mecânica. Hoje realiza praticamente todos os serviços da oficina, desde diagnósticos até suspensão e reparos mais complexos.

“Aqui a gente faz tudo. Motor, suspensão, diagnóstico, tudo isso, tudo a gente faz um pouco.” A preferência, no entanto, é pela linha diesel leve, especialmente a Renault Master, área em que pretende se especializar.

Durante a reportagem do Acorda Cidade, Cíntia estava atuando no reparo de um motor de um veículo modelo Kwid que estava apresentando vazamentos. Nas redes sociais, com a carroemulher, Cíntia mostra o corre do dia a dia na oficina e um pouco do seu universo na mecânica.

Se antes o preconceito fechava portas, hoje ele aparece de forma mais sutil. Alguns clientes ainda estranham ver uma mulher trabalhando em veículos de grande porte. “Quando é Master, principalmente, ele olha pra mim e fala: ‘Mas tu desse tamanho, tu vai fazer o que nesse carro?’ Eu falo: ‘Trabalhar, né, trabalhar’.” Outros, porém, já chegam fazendo questão de que seja ela a responsável pelo serviço. “Tem muito cliente que chega assim: ‘Não, eu quero que ela faça o serviço no meu carro’.”

“Ainda hoje existe aquele preconceito, aquele deboche. Aquele, ‘ah, você não consegue fazer isso. Prefiro um homem’.”

Para Cíntia, a profissão deixou de ser apenas um sonho realizado para se tornar uma missão. “Hoje eu vejo como exatamente a superação. Eu descobri que eu não preciso me esconder do que eu realmente quero. Não é por status, não é por dinheiro. A mecânica é a profissão que eu escolhi.”

Conheça a jovem de 27 anos que transformou um sonho improvável em profissão: "A mecânica foi o que eu escolhi"
Foto: Arquivo Pessoal

O próximo objetivo também está bem definido: abrir a própria oficina, mas com um diferencial. Ela quer criar um espaço onde outras mulheres se sintam acolhidas e respeitadas e principalmente, não sejam passadas para trás.

“Quero ter uma oficina para um público geral, só que, no meu sonho, essa oficina vai ser um espaço de acolhimento mais para mulheres, porque a mulher vai chegar lá e ela vai saber: eu tenho a minha vez de falar, eu posso entender o que é isso aqui e eu não vou ser enganada.

Ao ser perguntada sobre até onde pretende chegar, Cíntia não fala em cargos, salários ou reconhecimento. Sua resposta revela um propósito maior: “Eu não tenho limite, eu quero ir até onde Deus permitir. O meu objetivo principal é influenciar outras mulheres a não desistirem, independente da profissão que seja.”

A profissional em mecânica automotiva encerrou a entrevista com o Acorda Cidade explicando o que dá sentido à sua caminhada: “Porque para mim não faz sentido viver se não puder fazer pelo menos um pouquinho de diferença na vida das pessoas.”

Com informações do repórter Ed Santos, do Acorda Cidade